terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Uma Esquina Qualquer
Ele se aproximou, era grande, enorme. O medo me tomou por quatro ou cinco segundos, depois a raiva. Peguei impulso e chutei. A perfeição do chute foi inacreditável: minha canela encaixou no torax dele; Engraçado, nunca em minha vida eu tinha realizado um golpe com tanta perícia. Em todos os anos de karatê na infância e algum pouco tempo de kick boxing, não havia chegado nem perto do que eu tinha acabado de fazer. Senti como se tivesse quebrado alguns tubos finos de PVC, aterrissei. Olhei por um estante aquele pedaço de carne caído no chão. Suas pernas tremiam, depois alguns espasmos. Recuei sem tirar os olhos dele, eu ainda não entendia da onde tinha vindo aquilo, se era de mim mesmo, minha compilação de informações sobre voos, demolições, kamikazes, culinária, tragédias, velocidade, peso, vida e morte posta em prática; ou se foi uma interferência de fora (seja lá o que isso queira dizer). Enquanto suas pernas ainda ciscavam a calçada suja, ele começou a tentar se levantar, mas sem usar as mãos que permaneciam imóveis; era ridículo, um homem daquele tamanho, de bruços no chão tentando se levantar, erguendo a cabeça o máximo que conseguia, voltando de bochecha no chão com toda força. Nenhuma dor na minha canela. Senti queimar um pouco um segundo depois do impacto, mas no momento do golpe, senti confortável, era nada mais que futon; Abaixei a guarda e dei alguns passos à frente, precisava ver aquilo de perto, estava escuro, tudo era escuro. Quando me aproximei pude ver que havia sangue em sua boca, seu braço direito mexeu, quando pensei em recuar, ele se empurrou do chão, cambaleou em cima do joelho caindo pra trás, mas já se levantando em mais quatro movimentos que lembravam uma dança moderna, dessas que as mulheres ficam dando voltas no seu próprio eixo com os braços em movimentos suaves como se fossem molas; aquilo me surpreendeu, não esperava que ele fosse ficar de pé. Sua aparência era horrivel, cada vez que respirava, espirrava um pouco de sangue para fora, acompanhado de um assovio estranho, mas o que mais chamava atenção era seu peitoral, o malandro estava sem camisa, seu peitoral estava todo para dentro na parte central, algumas pontas empurravam sua pele, criando um relevo bizarro em seu torax. O sangue começou a brotar do nariz. O braço esquerdo continuava pendurado, ele levantou o direito com o punho cerrado, senti uma pontada de insegurança. Sua inspiração e respiração eram mais fortes e mais rápidas, engasgava e lançava gotas de sangue para frente, enquanto gargarejava aquela pasta escura. Um gofada acertou meu rosto, logo um fio de sangue desceu lentamente a lente dos meus óculos construindo um cenário assombrosamente belo, poderia ter passado o resto da noite assistindo aquele momento mágico. Meu corpo estava sofrendo descargas eletricas, aquele não parecia mais o mundo dos homens. Ele deu um passo a frente, urrou e caiu como uma árvore de cara no chão. Mesmo vendo aquilo de perto, não tinha como acreditar no que havia acontecido, seria negar tudo o que conhecia sobre mim mesmo, os doze neutralizados. Alguns gemiam, outro chorava, mas a maioria estava no mais profundo silêncio.
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